Morte e vida das grandes cidades JANE JACOBS

 

 

Trazemos nesse post um tema discutindo tanto em salas de aula, tanto fora. Jane Jacobs foi uma escritora e ativista política do Canadá, nascida nos Estados Unidos.A autora procurou, nesse livro, identificar no quotidiano de grandes cidades norte-americanas as razões da violência, da sujeira e do abandono, ou, ao contrário, a boa manutenção, a segurança e a qualidade de vida de lugares que constituíam a cena real das metrópoles, em simetria ao esquematismo dos modos de vida que os planejadores previam em seus modelos urbanos ideais.

Vários elementos e a diversidade deles formam as cidades. Segundo Jane Jacobs, as pessoas cuja mente se concentra em um único propósito vem a cidade sob um único prisma.
Não se deve classificar os usos das cidades por meio de categorias, as pequenas empresas acabam se destacando em locais onde estão concentradas as pessoas, trazendo vida e deixando a cidade atraente, muito mais que grandes empresas em locais pouco ocupados. Ao mesmo tempo que dependem da grande diversidade de outras empresas urbanas, contribuem para aumenta-las, a própria diversidade urbana permite e estimula mais diversidade.

Mesmo as cidades podendo ser chamadas de geradoras naturais de diversidade econômica e incubadora de novas empresas, isso não significa necessariamente que estas cidades gerem uma diversidade de forma automática, pois mesmo atividades comerciais muito comuns de pequeno porte como lojas de ferramentas, bares, lanchonetes, doceiras, surgem em grande quantidade em distritos movimentados por que ha gente suficiente para frequentá-las a intervalos curtos e convenientes, esse tipo de atividade comercial é muito encontrada no bairro do bexiga, na área da Avenida Treze de Maio e a Ruy Barbosa(ambas predominantemente por cantinas italianas), que atraem pessoas de bairros mais distantes também.

Não é sempre que as pessoas geram diversidade, podem também gerar nada além de estagnação, e um descontentamento com o local.
Como em Nova York, o Bronx que sofre de uma falta de vitalidade, diversidade e magnetismo urbano, o que difere do bairro do Bixiga, por ser muito vivo, movimentado, com muita cultura, usos mistos, e também atraem pessoa de todos os lugares da metrópole para lá pela grande e boa qualidade de seus serviços.

Jane Jacobs define quatro condições indispensáveis para gerar uma diversidade nas ruas e distritos:

1) A necessidade de usos principais combinados- O distrito, e os segmentos que o compõem deve atender a mais de uma função, para garantir a presença de pessoas que tenham horários diferentes ( estas devem sair de casa em horários diferentes e buscar os lugares por motivos diferentes) mas que usem boa parte da infraestrutura.
2) A maioria das quadras deve ser curta, as ruas e as oportunidades de virar esquinas seja frequente.
3) “O distrito deve ter uma combinação de edifícios com idades e estados de conservação variados, com prédios antigos, a moda de gerar rendimento econômico variado. “- Necessidade de prédios antigos
4) Deve haver densidade suficientemente alta de pessoas, incluindo moradores. – Necessidade de concentração

A necessidade de usos principais combinados

Primeira condição: O distrito, e os segmentos que o compõem deve atender a mais de uma função, para garantir a presença de pessoas que tenham horários diferentes, mas que usem boa parte da infraestrutura.
Parques urbanos, precisam de pessoas que estejam na vizinhança por motivos diferentes, senão só serão usados esporadicamente.

Essa movimentação nas ruas que a deixa segura, como no Bixiga que tem muitos restaurantes que trazem uma movimentação diária no bairro, o que deixa as pessoas mais seguras.
Empreendimentos que trazem vida ao distrito permitem o crescimento e uma ampliação do comercio dependente dos três tipos de grupos em proporções variáveis: uma loja que vende gravuras, uma loja que aluga equipamentos de mergulho e outra que entrega pizzas, todas trazem uma diversidade.
Como o centro comercial de Manhattan que possui cerca de 400 mil pessoas trabalhando, e uma grande quantidade de frequentadores, representando uma demanda diária de refeições e outros artigos, sem contar os serviços culturais. Um local que traga um leque de opções, como o Bixiga, teatros, restaurantes, parques, residências, comercio, serviços concentra um numero grande de pessoas, que não são apenas trabalhadores, assim como Manhattan, mas também aqueles de passagem que geram uma demanda no local.
O que muitas vezes acontece é o acumulo de pessoas em determinados horários do dia, gerando uma monotonia em outros horários, se um distrito for estritamente voltado a um uso isso tem grande chance de acontecer, por isso a importância da diversidade de usos. Isso fica claro na área do Bexiga, principalmente nas áreas das cantinas, pela manha, vemos apenas pessoas passando com pressa e seguindo seu caminho, mas não hà nenhum lugar para se ficar, sentar, já nos finais de semana principalmente na parte da noite você nota uma vida no local.
Por isso a prefeitura de Manhattan vem planejando obras de revitalização da região.
Se o projeto é dar um novo uso ao local, este deve levar em consideração o perfil do distrito.
Pensando em questões como: “ O que existe aqui que atraia visitantes nas horas de lazer, por exemplo, nos fins de semana? “
Atrações instaladas por exemplo em Battery Park, não na orla, mas um pouco mais para dentro para levar os visitantes mais adiantes. Projetos não rente as ruas, que limitem as pessoas apenas a chegar na frente da quadra, mas sim que as tragam para dentro dos distritos.
A idéia de um bairro ou distrito projetado para atender a uma função geralmente não consegue propiciar o que é necessário por estar preso nessa única função.
A ideia de que a mistura de usos é eficiente para gerar diversidade, consiste no significado dessa eficiência, que pode ser entendida pelas pessoas que utilizam as ruas em horários diferentes do dia vejam ela da mesma forma, que ela tenha a mesma identidade independente da hora. As ruas dos bairros devem transmitir a mesma coisa independente para quem frequente pela manhã, na hora do almoço ou a noite. A eficiência também pode ser entendida por pessoas diferentes utilizarem as mesmas instalações, não formando grupos diferentes e incompatíveis apenas por estarem lá por motivos diferentes.
Os centros das cidades têm uma mescla insuficiente de usos principais, sendo sua principal deficiência, e essa mistura influencia nas outras partes da cidade.

A necessidade de quadras curtas

Segunda condição: A maioria das quadras deve ser curta;; as ruas e as oportunidades de virar esquinas devem ser frequentes.

A vizinhanças isoladas tem tudo parta ser desassistidas pela população.
Se essas longas quadras fossem cortadas por uma rua, contendo prédios onde as coisas pudessem ter inicio e crescessem em pontos economicamente viáveis.
Quadras longas fazem com que pessoas que morem no mesmo bairro, cheguem a nunca se quer se cruzar na rua, e a abertura de novas ruas, e consequentemente a diminuição das quadras faz com que a vizinhança se abra.

Terceira condição: O distrito deve ter uma combinação de edifícios com idades e estados de conservação variados, com prédios antigos, a moda de gerar rendimento econômico variado.
Quando uma cidade tem apenas prédio novos, as empresas que venham a existir estarão limitadas apenas aqueles que poderão arcar com o custo de novos edifícios, e para isso precisam ser muito lucrativas ou subsidiadas.

Para o florescimento de uma diversidade é preciso que uma área tenha tanto empresas de alto rendimento quanto de médio e baixo. O que é novo hoje, pode deixar de ser novo, se tornando antigo. O tempo pode transformar o espaço adequado para uma geração em supérfluo para outra.
Jane Jacobs em uma de suas palestras disse: Devemos deixar espaço para a mercearia de esquina” , isso representa um entendimento da diversidade urbana.
A idade das construções é muito relativa quanto à utilidade e à conveniência. As combinações de prédios antigos e as consequentes combinações de custos de vida, são essenciais para obter diversidade e estabilidade nas áreas residenciais.
Locais que não possuem essa mescla de usos, sofrem problemas como o Brooklyn em Nova York, que empresas crescem , não cabem mais nos edifícios e precisam construir um prédio próprio, e acabando saindo do distrito.

A necessidade de concentração

Quarta condição: Deve haver densidade suficientemente alta de pessoas, incluindo moradores.
A descentralização produziu uma dispersão tão acentuada da população que a única demanda econômica efetiva que poderia existir nos subúrbios era a da maioria.

Em bairros residências, a relação entre concentração populacional e diversidade de usos não é levada em conta, as moradias de um local precisam ser complementadas por outros usos principais, para que as ruas fiquem movimentadas em diversas horas do dia.
Assim como em Boston, o North End promoveu a recuperação de seus cortiços, e possui a mais alta densidade residencial da cidade. O Bixiga possui milhões de cortiços, que poderiam passar por processos de recuperação, melhorando a condição de vida de muitos. Sua acumulação de pessoas e vital para o florescimento da diversidade urbana. Muitos confundem alta densidade habitacional com superlotação de moradias.
Altas densidades habitacionais são grande quantidade de moradias por acre, já superlotação são muitas pessoas numa mesma moradia. A superlotação é dada pelo senso de 1,5 pessoas por cômodo ou mais. As duas existem de forma independente.
A erradicação de cortiços nada tem a ver com a solução do problema da superlotação, pelo contrario, os cortiços pioram o problema.

Chegamos ao ponto de questionar, Quais densidades habitacionais urbanas seriam adequadas?
Não teria uma resposta exata, as densidades habitacionais urbanas são uma questão de funcionalidade, o que funciona em um local pode ser inviável para outro.
Densidades habitacionais muito baixas, seis moradias ou menos por acre com lotes de 21 por 30 metros podem ser boas para subúrbios, algumas densidades são mais altas tendo dez moradias por acre em média 15 por 27 metros.
Um semi subúrbio tem em media dez e vinte moradias por acre. Já as grandes cidades têm densidades de 20 ou mais moradias por acre.

“Até onde “deveriam” chegar as densidades habitacionais urbanas? Até onde elas podem ir?”

Se o objetivo é uma vida urbana movimentada, as densidades habitacionais devem subir.
Quando espaços muito grandes são deixados livres, e a densidade habitacional for muito baixa, as moradias devem ser muito bem acomodadas na porção de solo edificável. Alta densidade com variedade são impossíveis de ser conciliadas.
Por isso surge o medo da padronização, que algumas vezes acaba sendo inevitável ao querermos uma alta densidade habitacional urbana. O próprio processo de aumentar a densidade pode resultar em variedade crescente e dar lugar a densidades finais altas sem padronização.

ALGUNS MITOS SOBRE A DIVERSIDADE

“A mistura de usos é feia”

Muitas cidades combatem a diversidade por mitos como estes, de que a diversidade por deixar as cidades esteticamente mais “feias”.
Essas fantasias acabam por influenciar na forma de se abordar a realidade. Qualquer coisa malfeita tem má aparência.
Mas a homogeneidade também traz problemas. Locais onde tudo é muito parecido, andamos e parece que nem saímos do lugar, fazendo relação com o Bixiga, onde podemos ver que mesmo tendo muitas casas parecidas , com a mesma tipologia vemos que o tamanho das quadras, a relação das construções com a rua fazem com que explore o bairro , e não tenha essa sensação de mesmice.
Segundo Raskin, a arquitetura expressa exatamente a diferença entre as pessoas.

“Será que a diversidade provoca congestionamentos de transito?”

O que provoca o transito são os veículos e não as pessoas em si. O espaço que as ruas e os estacionamentos requerem faz com que tudo fique ainda mais espalhado, e provoca o uso mais intenso dos automóveis, isso é tolerável quando a população se encontra muito espalhada.
Em áreas urbanas diversificadas e densas, as pessoas ainda caminham.

“Será verdade que a diversidade urbana estimula usos nocivos? Será prejudicial permitir que todas as modalidades de uso estejam presentes em determinada área?”

Pinceladas de usos diversos não trazem benefícios a áreas residenciais, podem ate ser prejudiciais, já que estas áreas não estão preparadas para algo novo.
Estacionamentos, garagens de caminhões longos ou pesados, postos de gasolina, painéis publicitários gigantescos e empreendimentos inadequados em certas ruas suas dimensões não são apropriadas, mesmo podendo ser lucrativos estes podem empobrecer as ruas. No Bixiga não são encontrados muitos terrenos com estacionamentos, ou painéis de propaganda. As construções são bem condizentes com o local.
A maior falha do zoneamento urbano é permitir a monotonia, a diversidade dos locais deve ser algo discutido sempre, e todas as medidas que puderem ser tomadas para isso devem ser feitas.
As cidades têm capacidade de oferecer algo a todos, mas só porque e quando são criadas por todos.

 

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