A reconstrução do bairro do Chiado – Lisboa, Portugal

Escolhemos esse tema para essa post , por ser algo muito importante , que conta a história de uma cidade, e principalmente de um bairro muito conhecido. Realizamos um trabalho acadêmico com este tema junto a outros colegas de faculdade, o que gerou muita curiosidade para o aprofundamento na história por trás do projeto.
Vencedor do Pritzker de 1992, Álvaro Siza é o arquiteto responsável pelo restauro do tradicional bairro de Chiado, em Lisboa, Portugal. O projeto começou em 1989, à pedido da prefeitura da cidade, após um incêndio ter atingido mais de 15 edifícios vizinhos na região.
Há mais de duas décadas, o arquiteto português administra o extenso projeto de restauro, que transformou Chiado em um próspero distrito imobiliário.
Álvaro Siza Vieira, ao optar pela preservação do património existente, não quis abandonar a história, quis contá-la às futuras gerações recriando-a para que possa continuar a ser por elas vivida.
O estudo do plano de recuperação do Chiado, efetuado pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, após o incêndio ocorrido em 1988 em que ficaram destruídas uma enorme zona e diversos edifícios naquela parte da cidade, compreendida entre a Rua do Carmo, Rua Nova do Almada, Rua do Crucifixo e Rua Garrett.
Este plano, embora tratando-se de um projeto de grande complexidade, é de um enorme conceito e simplicidade pretendendo recuperar parte da cidade, com um grande peso histórico e cultural.
Siza foi a pessoa indicada para desenhar este plano, sendo que a proposta desenvolvida é uma solução simples, condição indispensável, para uma intervenção deste tipo, que nunca poderia ser radical, sob pena de romper com a história, e o património inquestionável daquela zona. Trata-se de uma das áreas mais importantes da cidade de Lisboa.

A zona do Chiado, incorporado na área central protegida da cidade de Lisboa, conhecida como Baixa Pombalina, situa-se na colina a oeste, elevada sobre a parte mais baixa da cidade, entre a atual Rua Garrett e o Largo das Duas Igrejas, desenvolvendo-se das ruas do Carmo e Nova do Almada até à Boa-Hora, absorvendo todos os arruamentos que nela convergem.
No dia 25 de Agosto de 1988, deflagrou no Chiado, um incêndio que horas mais tarde viria a alastrar-se acabando por arrasar grande parte da zona histórica da cidade. Estima-se que estas chamas tenham arrasado com cerca de oito mil metros quadrados de área.

“As chamas que deflagraram no edifício Grandella, alastrando para os edifícios que o rodeavam deixaram as fachadas descarnadas. Os edifícios da Rua do Carmo, Nova do Almada, Garrett e da Calçada do Sacramento, escondiam uma amálgama de ferros, paredes rachadas, e janelas abertas para o céu. (Vieira, 2009a, p.63)”

O presidente da câmara municipal de Lisboa ,Nuno Kruz Abecassis, nomeia Álvaro Siza Vieira como arquiteto responsável pelas obras de recuperação da área sinistrada. Esta decisão foi bastante contestada entre os lisboetas por vários fatores.

“A importância da ação de desenvolver traduzia-se em tensões e debates dialéticos que uma hábil gestão municipal resolveu de forma extremamente satisfatória: encarregar ao arquiteto português de fama internacional, Álvaro Siza Vieira, os projetos necessários à recuperação da zona devastada e à recuperação dos espaços demolidos e, inclusivamente desaparecidos. (Santiago, 1993, p.116)”

O incêndio que devastou o Chiado em 25 de Agosto de 1988, destrui dezoito edifícios, cerca de dez mil metros quadrados de área total queimada. Dos dezoito edifícios queimados fazem parte, os Grandes Armazéns do Chiado e o Edifício Grandella. Edifícios emblemáticos do Chiado. No caso do edifício Grandella desde 1906 e os Armazéns do Chiado desde os tempos mais remotos, tendo este já desempenhado várias funções diferentes ao longo da sua existência.

Nos anos que antecederam o fogo, o Chiado, encontrava-se descontextualizado. A intensa vida social, cultural e economica que acontecia naquela estrutura deixou de acontecer, entrando em declínio e abandono. Sobretudo à noite, tornando-se não mais que um ponto de passagem. Para esta situação de descontextualização do Chiado contribuíram vários fatores. Entre eles, a grande expansão da cidade para as periferias, que fez com que este centro deixasse de ser o único.
As cidades de hoje, não têm apenas um centro, mas vários polos onde se encontra o tipo de vivência assemelhada à do Chiado: Comércio, lazer, etc.
A facilidade de movimentação nas cidades de hoje é muito maior, o que conduz a uma maior dispersão das pessoas pela cidade, em vez de fortalecer os centros únicos.
Também os grandes armazéns instalados no Chiado atravessavam uma enorme crise, porque para este setor de comércio já não é o centro histórico de Lisboa que interessa, mas sim as grandes superfícies comerciais, que se situam em outros novos polos da cidade.
O que parece adequar-se melhor à fisionomia do bairro, são as pequenas lojas, os comércios especializados de pequena dimensão. (Vieira, 2009, p.43)
De um modo geral, existia da parte dos comerciantes uma enorme dificuldade e desinteresse em acompanhar estas transformações das dinâmicas sociais, o que de alguma maneira, gerou um envelhecimento do tecido comercial daquela zona. O setor terciário ali instalado, deixa de cumprir com as funções da época, gerando a sua falência.
Outro dos fatores que participavam ativamente nesta desertificação do Chiado, era a quase ausência do tecido habitacional, que se perdeu ao longo dos anos, mas para a qual o bairro foi dimensionado.

A recuperação da memória passava pela reconstrução da ambiência do Chiado. Não havendo razões para a mudar, no âmbito da arquitetura, havia de fato a necessidade de a transformar e adaptar às necessidades dos vários quotidianos que ali acontecem. O incêndio, veio tornar evidentes os problemas urbanos existentes na cidade, que vinham se acumulando desde algumas décadas anteriores.
Ele precisava organizar a estrutura do Chiado, atuando no sentido de atualizar as infraestruturas e introduzir os exigidos e importantes sistemas de segurança, mas mantando o traçado original da arquitetura pombalina.
O Chiado mantém a mesma arquitetura da Baixa, com exceção dos edifícios Grandella e Armazéns do Chiado.

chiado bairro

Siza Vieira não se deixou intimidar pela obrigação que o Chiado impunha no seu projeto de reconstrução, conseguindo, atribuir continuidade à herança pombalina e conferir-lhe inovação.Siza opta pela intervenção que entende a preservação da memória do Chiado, afirmando:

“Não me importo de passar por conservador, se isso significar que não tenho nenhuma ansia por ser moderno. Acredito que cada projeto tem uma vocação, nasce de uma necessidade interna que vai para além da vontade do arquiteto e do desenho. (Vieira, 2009, p.58)”

“O plano não pretende parar na história ou repetir o antigo, mas sim servir-se da memória para proporcionar inovação, com a construção do novo. (Rodrigues, 1992,p.37)”

“No entanto, sei que o Chiado vai sofrer profundas mudanças – não tanto no estilo e no desenho, como na sua abrangência. Será uma resposta às transformações em curso,aos novos modos de viver, às alterações de utilização da área, que irão arrancá-la da decadência para o dinamismo. (Vieira, 2009, p.58)”

bairro chiado

Carmo e a Rua Garrett, através da abertura de um pátio interior no Bloco B, articulando lances de escada e zonas rampeadas, sendo assim possível vencer a diferença de cotas. O projeto do pátio interior do Bloco B, ainda em fase de construção, estabelece ligações entre a Rua Garrett, a Rua do Carmo e o Convento do Carmo e os mais recentes Terraços do Carmo.
Os Terraços do Carmo, estão localizados sobre a Rua do Carmo imediatamente à frente das ruinas do convento e no fim do percurso que sai do Pátio B. Trata-se de uma plataforma que disfruta de uma belíssima vista sobre a encosta do castelo e a Praça do Rossio que servirá o Plano de Recuperação enquanto área de lazer.

Os trabalhos de recuperação da zona do Chiado tiveram início pouco depois do fogo e ainda hoje(vinte e cinco anos depois) não está terminados. Falta concluir a ligação da Rua Garrett ao Largo do Carmo através do Bloco B e a mais recente area dos Terraços do Carmo. Para uma melhor organização dos trabalhos, o plano de recuperação está dividido em três blocos (A, B e C).
O Bloco A é composto por edifícios do tipo pombalino e pretende introduzir um novo conceito de espaço urbano no Chiado, o Pátio, que visa inovar e reforçar a estrutura já existente.
O Bloco B é também composto por edifícios do tipo pombalino a “gritar” por uma recuperação. Tal como no anterior, no Bloco B vai existir um eixo de comunicação, também por meio de um pátio, que vai fazer a ligação entre dois pontos essenciais no Chiado, e conferir de facto continuidade ao desenho da cidade.
O Bloco C tem um conceito diferente no exercício da recuperação visto tratar-se de dois edifícios de composição particular. Estes edifícios são de extrema importância no desenho do Chiado, tanto pela sua localização, como na função que desempenham e pela história que já escreveram.

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O aproveitamento da oportunidade criada pelo incêndio. Com efeito, a cidade de Lisboa, teve dois momentos na sua história associados a catástrofes que devastaram zonas inteiras e partes da cidade. São elas o terramoto de 1755 e o grande incêndio de 1988.
Tratando-se o Chiado como uma plataforma entre a Baixa pombalina e o Bairro alto, Siza Vieira toma uma atitude não de ruptura, mas de continuidade da arquitetura ali praticada na estratégia de recuperação. Esta atitude, é o que mantém viva a memória daquela zona e o que demonstra a sensibilidade e bom senso de Siza Vieira. Trata-se portanto de uma opção do autor, que no entanto foi muito contestada por outras correntes, favoráveis à introdução de um novo registo de arquitetura, criticando-o por entenderem não existir mão criativa, por apenas se intervir no interior dos quarteirões, deixando o aspeto visual globalmente inalterado.
Apesar de a totalidade do projeto não estar ainda concluída, é hoje do senso comum, estar-se em presença de uma excelente transformação desta área da cidade.

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