Quinta Monroy / ELEMENTAL

A pedido do governo chileno, o ELEMENTAL foi convidado a auxiliar na resolução de uma difícil equação: radicar 100 famílias que, durante os últimos 30 anos estiveram ocupando ilegalmente um terreno de 0,5 hectares no centro de Iquique, uma cidade no deserto chinelo. Apesar do elevado custo do terreno, cerca de 3 vezes maior do que a habitação social normalmente pode pagar, deveria ser evitado a erradicação das famílias para a periferia em Alto Hospício

O trabalho do ELEMENTAL deveria estar dentro do quadro de um programa específico do Ministério de Habitação, chamado Vivenda Social Dinâmica sin Deuda (VSDsD)- Habitação Social Dinâmica sem Dívida – que visa a classe mais pobre da população, aqueles sem capacidade de conseguir empréstimos, e que consiste em um subsídio de US$ 7500 por família, com o qual se deve financiar a compra do terreno, custear os trabalhos de infra estrutura e arquitetura. Normalmente esse valor permite a construção de apenas 30 m². Isto, então, obriga os proprietários a transformarem “dinamicamente” essa simples solução habitacional em uma casa.
Analisando as condicionantes do projeto, foi pensado uma casa por lote, ainda que fosse utilizada os pequenos lotes padrão de habitação social, conseguiria alocar somente 30 famílias no terreno. Isto porque, com a tipologia de casas separadas, o uso do solo é extremamente ineficiente; a tendência, é a busca de terrenos que custem pouco. Estes terrenos estão, normalmente, nas periferias, marginalizados e distantes das redes de infra estrutura que uma cidade oferece.

Tipologias não viáveis

Na busca de utilizar o solo de uma forma mais eficiente reduziu o tamanho do lote de maneira a igualar com a área da casa, conseguiu-se então, a aglomeração. Para obter alta densidade é necessário a verticalização e, os edifícios resultantes não permitem que as habitações possam crescer. E neste caso, era preciso que cada moradia tivesse a liberdade de ampliar sua área em, no mínimo, o dobro de seu valor inicial.

O QUE FAZER ENTÃO?

O primeiro passo, foi mudar a forma de pensar o problema: em vez de projetar a menor unidade possível, de US$ 7500 e multiplicá-la por 100 vezes, o grupo decidiu focar qual seria o melhor edifício, de US$ 750000, capaz de abrigar 100 famílias e suas respectivas ampliações.

Etapas de Construção

Um edifício tradicional bloquearia o crescimento das habitações, exceto no pavimento térreo e no último andar; o térreo poderá crescer horizontalmente sobre o terreno que tem ao seu entorno e, o último pavimento sempre poderá crescer verticalmente até o céu. Foi então que optaram por um edifício que tivesse, somente, o térreo e o último andar.

Este projeto conseguiu identificar um conjunto de diferentes desenhos arquitetônicos que permitem esperar que a habitação valorize-se com o tempo.
Em primeiro lugar, foi desenvolvida uma tipologia que permitiu alcançar uma densidade suficientemente alta, para ser possível pagar pelo terreno que estava muito bem localizado na cidade, imerso na rede de infra estrutura que a cidade oferecia (trabalho, saúde, educação, transporte). A boa localização é a chave para que a economia de cada família conserve-se e para a valorização da propriedade.
Em segundo lugar, foi introduzido entre o espaço público (as ruas e calçadas) e o privado (de cada moradia) o espaço coletivo: uma propriedade comum, mas de acesso restrito, que dá lugar à socialização, atividade chave para o êxito de entornos frágeis.
Ao reagrupar as 100 famílias em grupos menores, conseguiu-se uma escala urbana suficientemente pequena para permitir aos vizinhos estarem em acordo entre si, porém, não tão pequena que eliminasse as redes sociais existentes

Em terceiro lugar, dado que 50% do m² dos conjuntos serão auto-construídos, este edifício devia ser permeável, o suficiente, para que os crescimentos acontecessem dentro de sua estrutura. Por um lado, era preciso emoldurar (mais do que controlar) a construção espontânea, de modo a evitar a degradação do entorno urbano com o tempo, e por outro, fazer o processo de ampliação o mais fácil possível.
Por último, ao invés de fazer uma moradia pequena (em 30m² tudo é minúsculo), foi projetada uma habitação de classe média, a qual foi entregue – dados os recursos disponíveis -, somente uma parte. Neste sentido, as partes mais onerosas da casa, tais como: banheiro, cozinha, escadas e paredes divisórias. Sendo projetadas para o estado final (uma vez ampliado), para uma habitação de 70 m².

Em resumo, quando se tem fundos para fazer somente metade do projeto, qual se faz? Optamos por fazer aquela metade que uma família, individualmente, nunca poderia alcançar, por mais tempo, esforço e dinheiro que se invista. E é dessa forma que procuramos responder com ferramentas próprias da arquitetura a uma pergunta não-arquitetônica: como superar a pobreza. ELEMENTAL.

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